Irlanda 1, Portugal 0

Publicado em Democracia, Política Educativa às Junho 14, 2008 por Fernando Cortes Leal

Perplexo e quase incrédulo, leio e trancrevo do web site da RTP:

“O Presidente da República diz que é um erro referendar tratados internacionais.”

Dito isto, confirma-se que a política nacional é uma farsa e que Portugal não tem quem autónoma e responsavelmente o governe. Limitamo-nos a ter um Presidente da República, de Boliqueime. Confesso: pese embora todas as divergências do mundo, prefiro o Alberto João, o bicho da Madeira.

Como ilação contrária à lógica democraticamente deficitária do PR, concluo: à semelhança do que ocorre em Portugal, os irlandeses deveriam perder a soberania nacional!

Perdoai-lhes, senhores, não sabem o que dizem!

A Incontornável Actualidade de ALDOUS HUXLEY e do seu “Admirável Mundo Novo”

Publicado em Democracia, Educação às Junho 12, 2008 por Fernando Cortes Leal

A Educadores, Professores e cidadãos:

 

A Incontornável Actualidade de ALDOUS HUXLEY e do seu “Admirável Mundo Novo”

 

 

PREFÁCIO DE ALDOUS HUXLEY, DATADO DE 1946, À SUA OBRA “ADMIRÁVEL MUNDO NOVO” 

 

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O remorso crónico, e com isto todos os moralistas estão de acordo, é um sentimento bastante indesejável. Se considerais ter agido mal, arrependei-vos, corrigi os vossos erros na medida do possível e tentai conduzir-vos melhor na próxima vez. E não vos entregueis, sob nenhum pretexto, à meditação melancólica das vossas faltas. Rebolar no lodo não é, com certeza, a melhor maneira de alguém se lavar.

Também a arte tem a sua moral e grande parte das regras dessa moral são idênticas, ou pelo menos análogas, às regras da ética vulgar. O remorso, por exemplo, é tão indesejável no que diz respeito à nossa má conduta como no que se relaciona com a nossa má arte. O que aí existe de mau deve ser encontrado, reconhecido e, se possível, evitado no futuro. Meditar longamente sobre as fraquezas literárias de há vinte anos, tentar remendar uma obra defeituosa para lhe dar uma perfeição que ela não tinha quando da sua primitiva execução, passar a idade madura a tentar remediar os pecados artísticos cometidos e legados por essa pessoa diferente que cada um é na sua juventude, tudo isto, certamente, é vão e fútil. E eis porque este actual Admirável Mundo Novo é o mesmo que o antigo. Os seus defeitos, como obra de arte, são consideráveis; mas para os corrigir ser-me-ia necessário escrever novamente o livro, e durante essse novo trabalho de redacção, ao qual me entregaria na qualidade de pessoa mais velha e diferente, destruiria provavelmente não apenas alguns defeitos do romance, mas também os méritos que ele poderia ter possuído na origem. Por esta razão, resistindo à tentação de me rebolar no remorso artístico, prefiro considerar que o óptimo é inimigo do bom e depois pensar noutra coisa.

 

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No entanto, parece-me ser útil citar pelo menos o mais sério defeito do romance, que é o seguinte: apenas é oferecida ao Selvagem uma única alternativa: uma vida demente na Utopia, OU a vida de um primitivo na aldeia dos índios, vida mais humana, sob certos pontos de vista, mas, noutros, apenas menos bizarra e anormal.

Na época em que o livro foi escrito, a ideia segundo a qual o livre-arbítrio foi concedido aos seres humanos para que pudessem escolher entre a demência, por um lado, e a loucura, por outro, era uma noção que eu achava divertida e considerava como podendo perfeitamente ser verdadeira. Todavia, por amor ao efeito dramático, é permitido frequentemente ao Selvagem falar de uma maneira mais racional que a que seria justificada pela sua educação entre os praticantes de uma religião que é metade culto da fecundidade e metade a ferocidade do Penitente. No fim, bem entendido, ele recuará perante a razão: o seu Penitente-ismo natal reafirma a sua autoridade, e ele acaba na tortura demente que a si próprio inflige e no suicídio sem esperança. «E foi assim que eles continuaram morrendo miseravelmente», o que muito tranquilizou o esteta divertido e pirrónico que era o autor da fábula.

Não tenho hoje nenhum desejo de demonstrar que é impossível ser-se são de espírito. Pelo contrário. Se bem que verifique, não menos tristemente que outrora, que a saúde do espírito é um fenómeno muito raro, estou convencido de que pode ser conseguida e gostaria de a ver mais espalhada. Por tê-lo dito em vários livros recentes e, principalmente, por ter elaborado uma antologia daquilo que os sãos de espírito dizem sobre a saúde do mesmo e sobre todos os meios pelos quais ela pode ser atingida, fui acusado por um eminente crítico académico de ser um deplorável sintoma da falência dos intelectuais em tempo de crise. Este julgamento subentende, suponho, que o professor e os seus colegas são alegres sintomas de sucesso. Os benfeitores da humanidade merecem congruentemente a honra e a comemoração. Edifiquemos um panteão para os professores. Seria bom que ele ficasse situado entre as ruínas de uma das estripadas cidades da Europa ou do Japão. E no pórtico de entrada do ossário inscreveria eu, em letras com dois metros de altura, estas simples palavras:

À MEMÓRIA DOS EDUCADORES DO MUNDO

SI MONUMENTUM REQUIRIS CIRCUMSPICE

Mas voltando ao futuro… Se eu tornasse agora a escrever este livro, daria ao selvagem uma terceira possibilidade. Entre as soluções utópica e primitiva do seu dilema haveria a possibilidade de uma existência sã de espírito - possibilidade actualizada, em certa medida, entre uma comunidade de exilados e refugiados que teriam abandonado o Admirável Mundo Novo e viveriam dentro dos limites de uma Reserva. Nessa comunidade, a economia seria descentralizada, à Henry George, a política seria kropotkinesca, cooperativa. A ciência e a técnica seriam utilizadas como se tivessem sido feitas para o homem, e não (como são presentemente e como serão ainda mais no mais admirável dos mundos novos) como se o homem tivesse de ser adaptado e absorvido por elas. A religião seria a procura consciente e inteligente do Fim Ültimo do Homem, o conhecimento unitivo do Tao ou Logos imanente, da Divindade ou Brama transcendente. E a filosofia dominante da vida seria uma espécie de Utilitarismo Superior, no qual o princípio da Felicidade Máxima seria subordinado ao princípio do Fim último, sendo a primeira questão que se punha e à qual seria necessário responder, em cada uma das contingências da vida, a seguinte: «Como contribuirão ou porão obstáculos à realização, por mim ou pelo maior número possível de indivíduos, do Fim último do Homem, este pensamento ou este acto?»

Educado entre primitivos, o Selvagem (nesta nova e hipotética versão do livro) só seria transportado para a Utopia após ter tido ocasião de se informar conscientemente sobre a existência de uma sociedade composta de indivíduos cooperando livremente e consagrando-se à procura da saúde do espírito. Assim modificado, o Admirável Mundo Novo possuiria qualquer coisa de completo, artisticamente e (se é permitido empregar uma tão importante palavra acerca de uma obra de imaginação) filosoficamente, que lhe falta, com toda a evidência, sob a sua actual forma.

 

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Mas o Admirável Mundo Novo é um livro sobre o futuro e, quaisquer que sejam as suas qualidades artísticas, um livro sobre o futuro não pode interessar-nos, a não ser que as suas profecias tenham a aparência de coisas cuja realização se pode conceber. Do nosso ponto de vista actual, quinze anos mais abaixo no plano inclinado da história moderna, qual é o grau de plausibilidade que ainda possuem os seus vaticínios? Que se passa durante este doloroso intervalo para confirmar ou invalidar as previsões de 1931?

Há um enorme e manifesto defeito de previsão que imediatamente se verifica. O Admirável Mundo Novo não faz a menor alusão à cisão nuclear. De facto, é extremamente curioso que assim seja, pois as possibilidades da energia atómica constituíam já um preponderante assunto de conversa alguns anos antes de o livro ter sido escrito. O meu velho amigo Robert Nichols tinha mesmo escrito a esse respeito uma peça de sucesso, e lembro-me de eu próprio ter dito umas palavras, de passagem, num romance publicado nos últimos anos da década de vinte. Parece-me portanto, como digo, muito curioso que os foguetões e os helicópteros do sétimo século de Nosso Ford (I.) não tenham possuído como força motriz núcleos de desintegração. Este esquecimento pode não ser desculpável, mas, pelo menos, pode ser explicado facilmente. O tema do Admirável Mundo Novo não é o progresso da ciência propriamente dita - é o progreSso da ciência no que diz respeito aos indivíduos humanos. Os triunfos da química, da física e da arte do engenheiro são considerados tacitamente como progredindo com normalidade. Os únicos progressos científicos que são explicitamente descritos são aqueles que interessam à aplicação aos seres humanos das futuras pesquisas em biologia, fisiologia e psicologia. É unicamente devido às ciências da vida que a vida poderá ser modificada radicalmente. As ciências da matéria podem ser aplicadas de tal maneira que destruam a vida ou que tornem a existência inadmissivelmente complexa e inconfortável; mas,       -a não ser que sejam utilizadas como instrumentos pelos biólogos e psicólogos, são impotentes para modificar as formas e as expressões naturais da própria vida. A libertação da energia atómica assinala uma grande revolução na história humana, mas não (a não ser que nos façamos saltar em pedaços e punhamos, assim, fim à história) a revolução final e a mais profunda.

A revolução verdadeiramente revolucionária realizar-se-á não no mundo exterior, mas na alma e na carne dos seres humanos. Vivendo, como viveu, numa época revolucionária, o marquês de Sade serviu-se muito naturalmente dessa teoria das revoluções a fim de racionalizar o seu género particular de demência. Robespierre tinha realizado o género mais superficial de revolução: a política. Penetrando um pouco mais profundamente, Babeuf tentara a revolução económica. Sade considerava-se como o apóstolo da revolução verdadeiramente revolucionária, para além da simples revolução política e económica - da revolução dos homens, das mulheres e das crianças individuais, para quem o corpo se iria tornar daí em diante a propriedade sexual comum a todos e para quem o espírito deveria ser purgado de todos os pudores naturais, de todas as inibições laboriosamente adquiridas pela civilização tradicional. Não existe, é claro, nenhum laço necessário ou inevitável entre o sadismo e a revolução verdadeiramente revolucionária. Sade era um louco, e o fim mais ou menos consciente da sua revolução era o caos e a destruição universal. Os indivíduos que governam o Admirável Mundo Novo podem não ser sãos de espírito (no sentido absoluto desta palavra), mas não são loucos, e o seu fim não é a anarquia, mas a estabilidade social. É com o fim de assegurar a estabilidade que eles efectuam, por meios científicos, a revolução última pessoal, verdadeiramente revolucionária.

Mas por enquanto encontramo-nos na primeira fase daquilo que é, talvez, a penúltima revolução. Pode acontecer que a fase seguinte seja a guerra atómica e, nesse caso, não teremos que nos preocupar com profecias acerca do futuro. Mas é possível que consigamos ter suficiente bom senso, se não para acabar completamente com as guerras, pelo menos para nos conduzirmos tão razoavelmente como os nossos antepassados do século XVIII. Os inacreditáveis horrores da Guerra dos Trinta Anos ensinaram alguma coisa aos homens e durante mais de cem anos os políticos e generais da Europa resistiram conscientemente

(I.) Trocadilho com Our Lord (Nosso Senhor). (N. do T.)

 

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à tentação de usar os seus recursos militares até ao limite da sua capacidade de destruição ou (na maior parte dos conflitos) de continuar a lutar até que o inimigo fosse completamente destruído. Eram agressivos, bem entendido, ávidos de lucro e de glória, mas eram igualmente conservadores, resolvidos a conservar intacto, a todo o preço, o seu mundo, na medida em que o consideravam uma florescente empresa. Durante os últimos trinta anos não têm existido conservadores; apenas tem havido radicais-nacionalistas das esquerdas e radicais-nacionalistas das direitas. O último homem de Estado conservador foi o quinto marquês de Lansdowne. E quando ele escreveu uma carta ao Times sugerindo pôr fim à guerra por um compromisso, como tinha sido feito na maioria das guerras do século XVIII, o redactor-chefe desse jornal, antes conservador, recusou a sua publicação. Os radicais-nacionalistas fizeram o que lhes apeteceu, com as consequências que todos nós conhecemos - o bolchevismo, o fascismo, a inflação, a crise económica, Hitler, a Segunda Guerra Mundial, a ruína da Europa e a quase completa fome universal.

Admitindo, pois, que sejamos capazes de tirar de Hiroxima uma lição equivalente à que os nossos antepassados tiraram de Magdeburgo, podemos encarar um período não certamente de paz, mas de guerra limitada, que seja apenas parcialmente ruinosa. Durante esse período pode-se admitir que a energia nuclear seja aplicada a usos industriais. O resultado - e o facto é bastante evidente- será uma série de mudanças económicas e sociais mais rápidas e mais completas que tudo que até agora foi visto. Todas as formas gerais existentes da vida humana serão quebradas e será necessário improvisar formas novas que se adaptem a esse facto não humano que é a energia atómica. Procusto moderno, o sábio de pesquisas nucleares prepara a cama em que a humanidade se deverá deitar; se a humanidade não se adaptar a ela, tanto pior para a humanidade. Será necessário proceder a algumas ampliações e a algumas amputações - o mesmo género de ampliações e amputações que se verificaram desde que a ciência aplicada se pôs realmente a caminhar com a sua própria cadência. Mas desta vez serão consideravelmente mais rigorosas que no passado. Estas operações, que estão longe de ser feitas sem dor, serão dirigidas por governos totalitários eminentemente centralizados. É uma coisa inevitável, pois o futuro imediato tem grandes probabilidades de se parecer com o passado imediato, e no passado imediato as mudanças tecnológicas rápidas, efectuando-se numa economia de produção em massa e entre uma populaÇão onde a grande maioria dos indivíduos nada possui, têm tido sempre a tendência para criar uma confusão económica e social. A fim de reduzir essa confusão, o poder tem sido centralizado e o controle governamental aumentado. É provável que todos os governos do Mundo venham a ser mais ou menos totalitários, mesmo antes da utilização prática da energia atómica; que eles serão totalitários durante e após essa utilização prática, eis o que parece quase certo. Só um movimento popular em grande escala, tendo em vista a descentralização e o auxílio individual, poderá travar a actual tendência para o estatismo. E não existe presentemente nenhum sinal que permita pensar que tal movimento venha a ter lugar.

Não há nenhuma razão, bem entendido, para que os novos totalitarismos se pareçam com os antigos. O governo por meio de cacetes e de pelotões de execução, de fomes artificiais, de detenções e deportações em massa não é somente desumano (parece que isso não inquieta muitas pessoas, actualmente); é

- pode demonstrar-se - ineficaz. E numa era de técnica avançada a ineficácia é pecado contra o Espírito Santo. Um estado totalitário verdadeiramente «eficiente» será aquele em que o todo-poderoso comíté executivo dos chefes políticos e o seu exérci’to de directores terá o controle de uma população de escravos que será inútil constranger, pois todos eles terão amor à sua servidão. Fazer que eles a amem, tal será a tarefa, atribuída nos estados totalitários de hoje aos ministérios de propaganda, aos redactores-chefes dos jornais e aos mestres-escolas. Mas os seus métodos são ainda grosseiros e não científicos. Os jesuítas gabavam-se, outrora, de poderem, se lhes fosse confiada a instrução da criança, responder pelas opiniões religiosas do homem. Mas aí tratava-se de um caso de desejos tomados por realidades. E o pedagogo moderno é provavelmente menos eficaz, no condicionamento dos reflexos dos seus alunos, do que o foram os reverendos padres que educaram Voltaire. Os maiores triunfos, em matéria de propaganda, foram conseguidos não com fazer qualquer coisa, mas com a abstenção de a fazer. Grande é a

 

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verdade, mas maior ainda, do ponto de vista prático, é o silêncio a respeito da verdade. Abstendo-se simplesmente de mencionar alguns assuntos, baixando aquilo a que o Sr. Churchil chama uma «cortina de ferro» entre as massas e certos factos que os chefes políticos locais consideram como indesejáveis, os propagandistas totalitários têm influenciado a opinião de uma maneira bastante mais eficaz do que teriam podido fazê-lo Por meio de denúncias eloquentes ou das mais convincentes e lógicas refutações. Mas o silêncio não basta. Para que sejam evitados a perseguição, a liquidação e outros sintomas de atritos sociais, é necessário que o lado positivo da propaganda seja tão eficaz como o negativo. Os mais importantes Manhattan Projects do futuro serão vastos inquéritos instituídos pelo governo sobre aquilo a que os homens políticos e os homens de ciência que nele participarão chamarão o problema da felicidade - noutros termos: o problema que consiste em fazer os indivíduos amar a sua servidão. Sem segurança económica, não tem o amor pela servidão nenhuma possibilidade de se desenvolver; admito, para resumir, que a todo-poderosa comissão executiva e os seus directores conseguirão resolver o problema da segurança permanente. Mas a segurança tem tendência para ser muito rapidamente considerada como caminhando por si própria. A sua realização é simplesmente uma revolução superficial, -exterior. O amor à servidão não pode ser estabelecido senão como resultado de uma revolução profunda, pessoal, nos espíritos e nos corpos humanos. Para efectuar esta revolução necessitaremos, entre outras, das descobertas e invenções seguintes: Primo

- uma técnica muito melhorada da sugestão, por meio do condicionamento na infância e, mais tarde, com a ajuda de drogas, tais como a escopolamina. Secundo - um conhecimento cientifico e perfeito das diferenças humanas que permita aos dirigentes governamentais destinar a todo o indivíduo determinado o seu lugar conveniente na hierarquia social e económica - as cunhas redondas nos buracos quadrados (I.) possuem tendência para ter ideias perigosas acerca do sistema social e para contaminar os outros com o seu descontentamento. Tertio (pois a realidade, por mais utópica que seja, é uma coisa de que todos temos necessidade de nos evadir frequentemente) - um sucedâneo do álcool e de outros narcóticos, qualquer coisa que seja simultaneamente menos nociva e mais dispensadora de prazeres que a genebra ou a heroína. Quarto (isto será um projecto a longo prazo, que exigirá, para chegar a uma conclusão satisfatória, várias gerações de controle totalitário) - um sistema eugénico perfeito, concebido de maneira a estandardizar o produto humano e a facilitar, assim, a tarefa dos dirigentes. No Admirável Mundo Novo esta estandardização dos produtos humanos foi levada a extremos fantásticos, se bem que talvez não impossíveis. Técnica e ideologicamente, estamos ainda muito longe dos bebés em proveta e dos grupos Bokanovsky de semi-imbecis. Mas quando for ultrapassado o ano 600 de N. F., quem sabe o que poderá acontecer? Daqui até lá, as outras características desse mundo mais feliz e mais estável - os equivalentes do soma, da hipnopedia e do sistema científico das castas - não estão provavelmente afastadas mais de três ou quatro gerações. E a promiscuidade sexual do Admirável Mundo Novo também não parece estar muito afastada. Existem já certas cidades americanas onde o número de divórcios é igual ao número de casamentos. Dentro de alguns anos, sem dúvida, passar-se-ão licenças de casamento como se passam licenças de cães, válidas para um período de doze meses, sem nenhum regulamento que proíba a troca do cão ou a posse de mais de um animal de cada vez. À medida que a liberdade económica e política diminui, a liberdade sexual tem tendência para aumentar, como compensação. E o ditador (a não ser que tenha necessidade de carne para canhão e de famílias para colonizar os territórios desabitados ou conquistados) fará bem em encorajar esta liberdade. juntamente com a liberdade de sonhar em pleno dia sob a influência de drogas, do cinema e da rádio, ela contribuirá para reconciliar os seus súbditos com a servidão que lhes estará destinada.

Vendo bem, parece que a Utopia está mais próxima de nós do que se poderia imaginar há apenas quinze anos. Nessa época coloquei-a à distância futura de seiscentos anos. Hoje parece Praticamente possível que esse horror se abata sobre nós dentro de um século. Isto se nos abstivermos, até lá, de nos fazermos explodir em bocadinhos.

Na verdade, a menos que nos decidamos a descentralizar e a utilizar a ciência aplicada não com o fim de reduzir os seres humanos a simples instrumentos, mas como meio de produzir uma raça de indivíduos livres, apenas podemos escolher entre duas soluções: ou um certo número de totalitarismos nacionais, militarizados, tendo como base o terror da bomba atómica e como consequência a destruição da civilização (ou, se a guerra for limitada, a perpetuação do militarismo), ou um único totalitarismo internacional, suscitado pelo caos social resultante do rápido progresso técnico em geral e da revolução atómica em particular, desenvolvendo-se, sob a pressão da eficiência e da estabilidade, no sentido da tirania-providência da Utopia. É pagar e escolher.

 

(I.) Expressão metafórica inglesa que designa um indivíduo que está num lugar que lhe não é próprio. (N. do T.)

 

 

ALDOUS HUXLEY

Modelos de Avaliação do Desempenho: Escolas de Hong Kong usam sensualidade das professoras para atrair estudantes

Publicado em Educação às Maio 26, 2008 por Fernando Cortes Leal
Novos modelos de avaliação do desempenho contra o abandono escolar.

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Beleza é tão importante quanto a capacidade de ensinar das educadoras.
Atraentes, elas aparecem nos anúncios publicitários como estrelas de cinema.

O apelo sexual tornou-se num dos mais importantes atractivos na educação de Hong Kong, onde os estudantes fazem duas provas muito concorridas para entrarem na universidade.

A beleza é um item considerado tão importante quanto a capacidade de ensinar ou o conhecimento das professoras. Atraentes, elas aparecem nos anúncios publicitários como estrelas de cinema. As escolas colocam fotos delas em outdoors, jornais, e mesmo na televisão.

Angela Yiu e Stella Cheng passaram semanas reunindo-se com consultores de moda e fotógrafos antes de se decidirem a usar mini-saia e salto alto na campanha publicitária. Elas não são modelos anunciando perfume, ou carros, são professoras particulares que ganham muito dinheiro ajudando estudantes de Hong Kong a passar nas provas do equivalente ao vestibular deles.

As pernas delas são as mais bonitas da indústria da educação“, disse Ken Ng, director da instituição Modern Education, uma das maiores na cidade. “É isto que faz vendermos bem.”

Algumas professoras têm a sua própria equipa de fotógrafos, estilistas e maquilhadores. Elas aparecem em fotografias nos sites das escolas, onde estudantes podem escolher com quem vão querer estudar.

Tudo isso para conseguir estudantes que precisam passar nos decisivos exames para entrar na universidade. Um terço dos estudantes de Hong Kong recorrem a professoras particulares para fazer as provas. Este nicho de mercado vem crescendo muito, e já gera quase 40 milhões de Reais por mês em aulas.

Fonte: Globo, Brasil – http://g1.globo.com/

O Galinheiro de Sócrates

Publicado em Democracia, Educação, Política Educativa às Maio 26, 2008 por Fernando Cortes Leal

 (A pedido de vários leitores, eis os antigos ‘posts’, agora recuperados e reeditados, para memória futura)

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Da governação socialista liderada pelo engenheiro Sócrates, o que mais me inquieta e perturba não é tanto as controversas opções neo-liberais por que aquela se norteia e este a subjuga, mas, sobretudo, a ausência de intervenção pública das elites políticas e culturais nacionais e a cada vez mais anémica participação democrática do povo português no destino do país.

Sócrates fez do partido socialista uma espécie de “sala de chuto” da esquerda política portuguesa, para a qual tratou de convocar revolucionários ideologicamente espoliados e de para ela arrastar militantes compulsivamente desalojados do aparelho partidário. Nela – na sala de chuto socialista - as seringas (leia-se o letal silêncio para que muitos foram remetidos) pagam-se a peso de ouro (uma seringa pode, por exemplo, equivaler a um almejado lugar de eurodeputado) e a “maldita cocaína” corresponde, em muitos casos, a um chorudo lugar de topo na administração de uma qualquer (in)viável empresa pública.

O espantoso é que, incólume, Sócrates tenta fazer ao País o que antes tratou de fazer ao seu partido, povoando um e outro de uma cultura de medo, perseguição e intriga palaciana. Mas o problema – o verdadeiro problema – é o de a democracia nacional promovida por Sócrates se assemelhar cada vez mais a um desonesto jogo de ‘poker’, na qual a batotice política é consentida e a delapidação económica do Estado é instigada.

Neste galinheiro em que a democracia portuguesa se parece apressadamente precipitar, o capitalismo internacional não só é dono dos ovos e das galinhas, como é, também, dono do governo de Sócrates. Dito de outro modo, é verdade que as galinhas põem os ovos e que o socrático galo manda na capoeira nacional, porém quem põe e dispõe nestas transgénicas culturas de aviário, são os mesmos que na próxima ceia de Natal não deixarão de comer o galo e de exigir às galinhas mais produtividade e mais competitividade para saciar o seu voraz e predador apetite.

Para gáudio dos mentores da globalização dos mercados, Sócrates pode pavonear-se e vangloriar-se de num ápice ter promovido os cidadãos portugueses à condição de inveterados consumidores da «McDonaldização» do mundo; de ter transformado os agregados familiares em desesperados devedores hipotecados às corporações financeiras e de ter feito de cada trabalhador uma oportunidade de negócio pago a ‘preços da China’.

socrates2Não se estranhará, por tudo isto, que Sócrates trate de esvaziar o Estado das suas funções sociais; que em nome de uma já fantasmagórica contenção da despesa pública, fragilize a segurança social e a protecção aos cidadãos; que cuide de cinicamente arruinar a Escola pública preparando-se para entregar a educação dos filhos da classe média ao sector privado, deixando para o Estado a responsabilidade educativa de socialmente “adestrar” os filhos das famílias mais empobrecidas que neste não virão a ter lugar.

Sócrates dá mostras de padecer de uma atípica e conflituosa relação de amor e ódio para com o povo português. Como governante parece detestá-lo e, ao mesmo tempo, como líder partidário parece eleitoralmente amá-lo. Este, aliás, não é caso único no elenco governativo: Sócrates não gosta dos portugueses da mesma forma que a ministra da educação abomina os professores e o ministro da saúde despreza os utentes do Serviço Nacional de Saúde.

Ignorará Sócrates que Portugal não pode competir à escala mundial como o fazem outros países europeus com outra estratégica centralidade e posição geopolítica? Desconhecerá Sócrates que no actual contexto da mundialização dos mercados o modelo político e económico por que Portugal poderia ambicionar seria o de um Estado social similar ao dos países nórdicos? Saberá Sócrates que a descapitalização de um Estado periférico como o nosso, apenas conduz à sua crónica depauperação económica e social e à sua subalternização política no contexto internacional?

No País vizinho, por exemplo, o governo de Zapatero trata de estrategicamente incentivar e apoiar a colocação de médicos nas aldeias do interior e de dinamizar a educação e a cultura nas respectivas comunidades locais, revitalizando-as economicamente e tornando assim viável o seu repovoamento. Por cá, quanto a esta matéria, a palavra de ordem é ‘desertificar’. Para o engenheiro Sócrates, encerrar escolas e urgências hospitalares é uma necessidade orçamental que justifica o abandono das populações. Porém, para os cidadãos e para os utentes do SNS é uma vergonha nacional. Para Sócrates, o desemprego é um mal menor que o choque tecnológico um dia tratará de remediar.

Por sua vez, a economia de subsistência familiar, da qual em muito se sobrevive particularmente no interior, é um assombroso ‘mercado negro’ a que a ASAE tem de por cobro. A este propósito, questiono-me: não será a ASAE um misto de polícia económica e de polícia política que hoje persegue e desmorona pequenos negócios de dimensão familiar? Será que a híbrida ASAE, ou outra qualquer entidade policial, também controla os negócios dos grandes grupos económicos e financeiros a operar em Portugal? Será que o crime económico é uma exclusividade das actividades de subsistência familiar?

Saberá Sócrates que a cultura e a tradição portuguesas não se compaginam com as gladiadoras culturas competitivas que provêm do embate económico entre os EUA e a Ásia emergente. Ou será que, para Sócrates, é indiferente saber que as transnacionais norte-americanas ‘Wal-Mart Stores’ (sector de retalho), a ‘Exxon Mobil’ (petróleo e gás), a ‘General Motors’ e a ‘Ford’ (ambas na actividade de consumos duráveis), a britânica ‘BP’ e a holandesa ‘Shell’ (ambas a actuar no petróleo e gás) e a alemã ‘Daimler-Chrysler’ (consumos duráveis) superam a riqueza total produzida por Portugal? Saberá Sócrates que Portugal é um País sem petróleo? Não será que Portugal é, cada vez mais, um americanizado quintal na Europa à beira mar plantado?

Será que o primeiro-ministro de Portugal desconhece que o Produto Interno Bruto (PIB) nacional, medido em unidades de poder de compra, situou-se em 2006 em 75 por cento da média europeia, sendo o mais baixo da Zona Euro, segundo dados do ‘Eurostat’ recentemente publicados, e que atrás de nós só é possível encontrar novos Estados-membros, dos quais, mesmo assim, quatro deles (Chipre, Eslovénia, República Checa e Malta) já nos ultrapassaram?

O absurdo e incompreensível(?) de tudo isto é quase ausência de oposição política, social e cultural à governação de Sócrates. Porém, a inexistência de oposição partidária à política neo-liberal de Sócrates também não é de estranhar. Pelo contrário. Veja-se, por exemplo, como o líder social-democrata incentiva e apoia coniventemente o engenheiro Sócrates. Menezes, o líder(?) da oposição, assegurou, há poucas semanas, que se fosse ele o primeiro-ministro de Portugal (que Deus não queira e que o povo disso nos livre!), em 6 (seis!) meses privatizaria a quase totalidade dos serviços do Estado, como se isso não fosse aquilo que Sócrates tem vindo a promover desde que, nas últimas legislativas, Santana Lopes, por demérito próprio, lhe ofereceu de bandeja o lugar de primeiro ministro.

Ainda assim, torna-se hoje claro que Sócrates é um líder político a abater a curto ou a médio prazo. É, por outras palavras, um “moço de recados” da economia mundial, que tem no panorama político português a função instrumental -e por isso transitória- de importar, de aplicar e de politicamente socializar, por um lado os desígnios predadores da economia global norte-americana e, por outro, de satisfazer os interesses mais obscuros da economia europeia, ampliando assim o espectro de acção dos grandes grupos económicos e financeiros mundiais no território nacional.

Na ausência de oposição, talvez o voto em branco, em tempos insinuado pelo nobel Saramago, possa ser nas próximas legislativas (que tardam em chegar), a alternativa mais imediata e mais credível a este socratismo neo-liberal que assola e devasta o País.

Enfim, readaptando o grande Almada Negreiros, quase apetece dizer que “Se Sócrates é português, então eu quero ser espanhol(!)”. De preferência, já!

 

Fernando Cortes Leal

Janeiro de 2008

Da Razão dos Professores e do Défice Democrático Nacional

Publicado em Democracia, Educação, Política Educativa às Maio 26, 2008 por Fernando Cortes Leal

 (A pedido de vários leitores, eis os antigos ‘posts’, agora recuperados e reeditados, para memória futura).

Troiasocrates-fhdr1As manifestações espontâneas de professores que decorreram no presente fim-de-semana em várias localidades do país (Porto, Leiria e Caldas da Rainha), a par daquelas outras que um pouco por todo o lado trazem para as ruas o protesto e a indignação de milhares de cidadãos confrontados com o inexplicável encerramento de serviços sociais fundamentais ou com a sua absurda deslocalização, particularmente os de assistência à doença e protecção à saúde,  devem  rapidamente ser interpretadas pelos órgãos de soberania nacional como um sério aviso e como um inquestionável sinal da anémica fragilidade sobre a qual se sustenta presentemente a democracia política representativa em Portugal.

É mau -é muito mau- sinal para a democracia política e social portuguesa que para ilustrar o alegado sucesso do rumo da actual governação, o primeiro-ministro invoque e se vanglorie da “constituição de empresas na horae deixe ostensivamente a muitas horas de distância o atendimento a cidadãos em prolongada situação de dor e sofrimento, fechando-lhes, na hora, e quase sem aviso prévio, as urgências hospitalares.

É mau -é muito mau- sinal para a democracia representativa que os nossos governantes entendam que os sindicatos são organizações marginais relativamente aos interesses e às expectativas dos profissionais que estes representam.

É mau -é muito mau- sinal que um  crescente número de portugueses queira em Portugal exercer o seu cada vez mais cerceado direito à cidadania e se renda à obrigação de cada vez mais ser consumidor em Espanha.  É lamentável que muitos cidadãos portugueses assumam, já sem reservas, que se envergonham dos seus governantes e,  com compreensível pudor,  até já digam que de Espanha, afinal, já só vêm “bons ventos e bons casamentos(!)” porque maus são os que por cá se fazem violentamente sentir e interesseiramente urdir.

Os perigos para a democracia política portuguesa são já demasiado evidentes. Por um lado, as instituições públicas e a democracia política perdem rapidamente a confiança dos cidadãos, arredando-os do fundamental estatuto democrático de co-autores das decisões políticas fundamentais, e, por outro lado, na ausência de uma visão política de futuro credível para Portugal e perante o insucesso que os indicadores de desenvolvimento económico e social tratam de insistentemente revelar, o governo insiste em governar quase exclusivamente para marcar pontos nas estatísticas da Europa, seja através do infindável combate ao défice público seja mediante a artificial redução dos números do desemprego, do insucesso e do abandono escolares.

Para além da razão que assiste aos professores (a qual se me afigura incontestável, tal como em anteriores crónicas justifiquei), importa sublinhar que a grave crise de representação democrática que vivemos em Portugal, tem como causa primeira a emergência de uma tecnocracia política liderada pelo actual governo socialista, de cariz predominantemente europeísta e vincadamente economicista, de corrosiva natureza partidocrática, de vocação tentacular para com a partidirazação do Estado e prossecutória para com a participação dos cidadãos.

A acção governativa em matéria de educação é, deste perigoso facto, paradigmático exemplo ilustrativo. Senão veja-se:

1. O Ministério da Educação tratou, desde cedo, de desvirtuar e esvaziar de conteúdo democrático os desejáveis e legalmente protegidos processos de negociação com as estruturas representativas dos professores. Para evitar a mediação e a participação dos sindicatos dos docentes em decisões políticas essenciais para a educação, optou por constituir, na boa linha da tradição monárquica mais conservadora, um seu apêndice,  o ‘Conselho de Escolas’, o qual, mais do que vocacionado para efectivamente representar junto do Ministério da Educação as escolas, os professores e as preocupações sentidas nos territórios educativos pelos seus actores imediatos e mediatos, se apresenta como um nascituro órgão a quem já se atribui a incumbência de  calar a voz de alunos, de professores e de encarregados de educação, e, ao invés do discurso oficial, de às escolas levar a “voz do dono”, configurando-se, assim, como mais uma extensão tentacular deste gigantesco polvo em que se transformou o Ministério da Educação e a política centralista que o rege;

2. O governo socialista aprovou e impôs unilateralmente um estatuto profissional que cumpre a estratégia de dominação preconizada por qualquer neo-maquiavel ou por qualquer conselheiro de Estado norte-americano: dividir para reinar(!). Para tanto fez dividir a carreira docente em duas categorias,  através de um incoerente, injusto e absurdo concurso para professor titular. Com ele e com as injustiças por ele geradas, enquanto os professores se entretinham a contabilizar e a fazer prova dos pontos por si amealhados para efeitos de concurso, a ministra da Educação e a sua equipa, preparavam novos e mais requintados normativos para golpear a escola pública. O novo Estatuto do Aluno e o recente modelo de direcção e gestão das escolas constituem deles dois dos vários exemplos da autocracia tecnocrática instada no governo da nação;

3. De permeio ficam muitas iniciativas unilaterais e outras tantas omissões de que este governo tem sido pródigo autor. Relembre-se que nunca a ministra da Educação teve uma palavra de apreço para com os professores e jamais ousou dar-lhes uma palavra de confiança e de motivação para o seu cada vez mais exigente desempenho profissional. Pelo contrário, para além de os obrigar a cumprir muitas dezenas de horas extraordinárias não remuneradas (dentro e fora das escolas), de lhes aumentar a ansiedade e promover o desenvolvimento de patologias associadas à mais stressante das carreiras profissionais (como vários estudos fazem notar), tratou, também, de desbaratar a essência da profissionalidade docente vinculando os professores à obrigatoriedade de assegurar aulas de substituição, quer em prejuízo da natural e desejável socialização entre crianças e jovens, quer em prejuízo de apoios educativos direccionados para os alunos que deles efectivamente necessitam;

4. Como se tudo isto não bastasse, tratou a srª ministra da educação de, mais recentemente, vincular os professores à obrigação de entre si avaliarem (policiarem!) os respectivos ‘umbigos didáctico-pedagógicos’, sendo que, no atabalhoado e ignóbil modelo de avaliação instituído, como condição cimeira para a obtenção da nota ‘Excelente’, os professores não podem ter uma única falta anual e, para alcançar aquela mesma menção ou para obter a de ‘Muito Bom’, os professores terão de fazer transitar de ano -administrativamente, como implicitamente se pede? - todos os alunos e de implorar aos deuses (não vejo que todos os pais e muito menos os serviços sociais de protecção e apoio aos menores o façam) que nenhum dos seus alunos ouse abandonar as turmas que cada um deles lecciona.

Enfim, é Portugal e decorre o ano de 2008. O ‘Rei’ ainda não vai nu. A ministra da educação também não. Por enquanto.

Sosseguem o Primeiro-Ministro! Os Professores Não Querem o Poder

Publicado em Democracia, Educação, Política Educativa às Maio 26, 2008 por Fernando Cortes Leal

  (A pedido de vários leitores, eis os antigos ‘posts’, agora recuperados e reeditados, para memória futura).

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Sabe-se agora aquilo que a honestidade intelectual e a ética democrática a todos já fazia prever. Os Professores, ao contrário do que o Sr. primeiro-ministro e a sua maternal ministra da educação querem fazer crer, não são parvos e muito menos são politicamente acéfalos. Pelo contário, constituem a classe profissional em quem os portugueses mais confiam e também aquela a quem concederiam, no País, mais poder.

 

Quem o diz é a ‘Gallup’, (A Gallup Organization estuda a natureza e o comportamento humanos há mais de 70 anos), na sequência de uma muito recente sondagem por si realizada em 60 países para o ‘Fórum Económico Mundial”(WEF).

 

De acordo com a sondagem da ‘Gallup’, os professores merecem a confiança de 42 por cento dos nossos concidadãos, enquanto os políticos constituem a classe em quem menos os portugueses confiam, quedando-se estes por uns míseros e vergonhosos (e ainda assim talvez inflacionados) 7 (sete!) por cento. Ou seja, a confiança dos portugueses nos seus políticos não será muito superior àquela que os mesmos depositam nos rafeiros que à noite lhes tiram o sono e com quem de manhã partilham o pequeno-almoço.

 

Mas ‘Gallup’ diz-nos mais. Também a nível mundial, a ética democrática e a competência profissional dos professores arrasa e vence por ‘K.O.’ a generalizada irresponsabilidade, a vulgarizada mentira, a protegida incompetência e a consentida corrupção de muitos dos políticos de carreira que tendem, após poucos anos no activo e no segredo do seu concluiu corporativo, à fuga – quais hodiernos Pilatos- para a administração de empresas públicas e/ou para outros apetitosos fornecedoras de complementos de reforma pagos pelo cada vez mais descapitalizado fundo de poupança das famílias portugueses.

 

Por sua vez, os professores são convidados a trabalhar até aos 65 anos de idade, e, enquanto isso, alguns mais ‘entusiastas’ políticos da nossa praça (do tipo Valter Lemos) serão com certeza requisitados –quais terroristas da democracia- para dinamitar de uma vez por todas a qualidade do ensino público, coisa que os recompensará ou com uma avulsa nomeação política para dirigir uma lucrativa instituição de ensino privado, ou, em alternativa, e sem mais demandas, os brindará com uma terceira reforma, preferencialmente antes dos 65 anos de idade.

 

Voltemos à sondagem da ‘Gallup’. Também à escala mundial os professores constituem a classe profissional sobre a qual recai a preferência das populações ocidentais para confiar responsabilidades de poder, enquanto os políticos, que detêm artificialmente o poder por força do marketing da geração ‘mudásti’ e dos financiamentos obscuros que os ‘colam ao tecto da soberania nacional’, ficam-se, uma vez mais, no último dos lugares deste ranking.

 

Verifica-se, ainda, como indicador muito interessante e ao mesmo tempo sobejamente revelador do pântano em que a classe política neo-liberal chafurda, o facto de a diferença entre ambas as classes ser ainda mais acentuada na generalidade do mundo ocidental, aquele no qual competir sem reservas morais e éticas é a palavra de ordem e humanizar e democratizar é coisa tão aberrante que só os professores e mais algumas infames classes profissionais, na sua ‘inocência e boa-fé’, insistem em defender e instigar para mal das predadoras economias mundiais, as quais, ‘naturalmente’, também governam Governos nacionais, sejam eles socráticos ou não.

 

Agora mais a sério. Face aos dados disponibilizados pela sondagem mundial promovida pela ‘Gallup’, uma outra importante constatação: o neo-liberalismo é, implícita mas implacavelmente, condenado pelos cidadãos do mundo dito desenvolvido. Ao invés, o humanismo, a ética e os valores democráticos, inerentes à profissionalidade docente, arredados que estão do exercício do poder político, são expressamente reconhecidos e enaltecidos nos resultados desta sondagem.

 

Perguntar-se-á: Será por “inveja” do humanismo e dos valores democráticos, insistentemente cultivados pelos professores, que Sócrates, no seu galinheiro nacional, tenta agora politizar os órgãos de direcção e gestão das Escolas através da inusitada e patética proposta legislativa que indecentemente afasta da direcção das Escolas os professores e abre caminho para a sua partidarização? Não será esta a via mais célere para satisfazer os ensejos dos interesses das grandes multinacionais que no tonto desvario da globalização dos mercados não aceitam compatibilizar produtividade com cidadania? Não será que Sócrates, por encomenda dos seus correligionários europeus e norte-americanos, aceitou o compromisso de impor à escola pública que à democracia faça figas e que à educação para a cidadania diga não?

 

Não será que, para aquele efeito, urge à desprestigiada classe política nacional manietar maquiavelicamente os docentes, promovendo, tal como Sócrates fez anteriormente no seu círculo (circo) partidário, o tribalismo entre os professores à custa de os por a avaliar entre si o umbigo didáctico-pedagógico de cada um? Não será esta uma requintada fórmula de os afastar das grandes preocupações educativas e pedagógicas actuais, investindo uns de polícias e outros de ladrões a digladiarem-se mutuamente, com o único e exclusivo objectivo de afastá-los da massa crítica nacional e com isso beneficiar a classe política instada no poder? Não será o actual Estatuto da Carreira Docente uma cartilha política que antes de mais visa calar e subjugar os docentes à autocracia das ‘políticas de mercado’?

 

Fernando Cortes Leal

O Silêncio do Conselho de Escolas…

Publicado em Democracia, Educação, Política Educativa às Maio 26, 2008 por Fernando Cortes Leal

 (A pedido de vários leitores, eis os antigos ‘posts’, agora recuperados e reeditados, para memória futura).

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O inaudito silêncio do ‘Conselho de Escolas’.

Não tenho dúvidas: O Conselho de Escolas perdeu uma ocasião ímpar para se demarcar das políticas ministeriais e ter uma palavra pública de crítica ao ignóbil processo de avaliação do desempenho docente que o ME quer impor. Modelo este que tem contra si, comprovada e fundamentadamente, a maioria dos educadores e professores do País.

Não deixa, por isso, de ser estranho, absurdo e sintomático que tais ‘conselheiros’ tenham optado por prestar vassalagem à ministra da educação e desprezado indecorosamente os pares que os elegeram para presidentes de conselhos executivos de escolas. Afinal, quem precisa de conselheiros assim?…

Eloquências e evidências de Pedreira (o Ambrósio Jorge do Ferrero Rocher) sobre a Avaliação do Desempenho dos Docentes

Publicado em Democracia, Educação, Política Educativa às Maio 26, 2008 por Fernando Cortes Leal

 (A pedido de vários leitores, eis os antigos ‘posts’, agora recuperados e reeditados, para memória futura).

PedreirJorge Pedreira admitiu hoje o óbvio: a Avaliação do Desempenho não tem por objectivo cimeiro aumentar a qualidade da oferta educativa das escolas e, muito menos, promover o desenvolvimento profissional dos docentes.

Nas palavras do Secretário de Estado (que é Jorge mas que de educação pouco ou quase nada percebe) a avaliação do desempenho docente apenas visa contribuir para a redução do défice público.

Obrigado Jorge, e, já agora, brindemos: Eureka! O enigma da má-fé ministerial foi por si definitiva e finalmente revelado!

O Jorge está para a educação e para a sua dama ministra como o mordomo Ambrósio está para o ‘Ferrero  Rocher’. Isto é,  “Sócrates, apetece-te algo?… e logo o nosso ambrósio Jorge serve a coisa que falta ao apetite da ministra e que ao primeiro ministro faz muita falta: rebuçados! Sim, acreditem, um chupa-chupa às vezes é o suficiente para acalmar o stress da governação socrática(!).

Eu sei que o Jorge, o tal que é pedreira, saíu num pacote de farinha ‘Amparo’ à ministra. Também sei que o Valter (coitado!) foi p’ra Boston na década de 80 à procura de uma profecia que só agora se cumpriu: ambos, um e outro (a Pedreira do Lemos e o Valter dos pedregulhos) reeducarem o proletariado em que o professorado se constituiu

No fórum da ‘TSF’ da manhã de hoje, Pedreira (o tal que é Jorge e que por inoportuno acaso é Secretário de Estado), justificou os motivos pelos quais o ME discorda da proposta, racional e politicamente correcta, de António Vitorino (o Euro-Deputado e o cavalheiro que se segue a Sócrates no PS), de experimentalmente adiar esta fórmula (inquinada) de avaliação do desempenho docente e, naturalmente, testá-la em escolas piloto, experimentalmente, durante um ou dois anos. Contudo…

Contudo e contido…., Pedreira (o Jorge, que até é secretário da ministra Lurdes), confessou o politicamente inconfessável nas democracias desenvolvidas: “Terá de haver avaliação para que os professores possam progredir na carreira e assim possam vir beneficiar de acréscimos salariais” (sic).

Ou seja, aquilo que hoje se discute no mundo ocidental (democrático, moderno e desenvolvido, como o rotula mas desconhece a primata primeira ministra), gira em torno da dicotomia de se saber se a avaliação do desempenho docente serve propósitos de requalificação educativa (se para isso directamente contribui) ou se visa simplesmente constituir-se em mais um instrumento de redução do défice público.

Nesta matéria, Pedreira (o tal que é Jorge e ao mesmo tempo teima em ser secretário da ministra que também parece oriunda de uma falida pedreira), foi claro: Importa conter a despesa do Estado com a diminuição da massa salarial dos docentes; o resto (a qualidade das escolas e do desempenho dos professores) é tanga(!).

Percebe-se, assim, por que motivo este modelo de avaliação plagia aquele que singra na Roménia, no Chile ou na Colômbia. Países aos quais a OCDE, o FMI e os ideólogos do New Public Management (Todos eles norte-americanos) impuseram a desqualificação da escola pública em nome da contenção da despesa pública; Percebe-se, assim, porque razão a ministra Maria de Lurdes Pedreira (que tem um secretário que é Jorge e, como ela, também é Valter) invoque a Finlândia para revelar dados estatísticos de sucesso escolar e a ignore em matéria de avaliação do desempenho docente. Percebo a ministra pedreira: não se pode referenciar aquilo que não existe. A Finlândia, com efeito, não tem em vigor qualquer sistema ou modelo formal e oficial de avaliação do desempenho dos professores!

Agradeço à pedreira intelectual que graça no governo de Sócrates (que por acaso não é Jorge nem pedreiro – até é engenheiro), finalmente nos ter brindado com tão eloquente esclarecimento. Cito-os:

A avaliação dos Docentes é mais um adicional instrumento legislativo para combater o défice público(!).

Obrigado, Srs. Pedreiras, pela clarificação do óbvio.

 Fernando Cortes Leal

Tribalismos e avaliação docente

Publicado em Democracia, Educação, Política Educativa às Maio 26, 2008 por Fernando Cortes Leal

 (A pedido de vários leitores, eis os antigos ‘posts’, agora recuperados e reeditados, para memória futura).

OlhoDiz o nosso colega e amigo Gonçalo Rego (no ‘Margem Sul&rsquo ;) que com o novo modelo de direcção e gestão escolar os presidentes dos actuais Conselhos Exetuvivos têm brinde:

O truque é oferecer o lugar de Director ou reitor aos actuais presidentes de Conselhos Directivos que se portarem bem, obedecendo acriticamente às ordens ministeriais.”

Ou seja, é preciso que algo mude para que tudo fique na mesma (na gestão caciqueira, claro). Pergunto-me:

-Quantos presidentes de CE estão do lado das preocupações daqueles que os elegeram? Será que os Alberto João Jardim são um exclusivo extra-continental? O Poder (ainda que anão) corrompe, não é verdade(?).

Abraço-vos!

“Et… Basta!” - O grande (mas não derradeiro) argumento dos Professores está por vir!

Publicado em Democracia, Educação, Política Educativa às Maio 26, 2008 por Fernando Cortes Leal

 (A pedido de vários leitores, eis os antigos ‘posts’, agora recuperados e reeditados, para memória futura).

Et… Basta!”

Crianca

Os Professores não são verbo de encher. Comparativamente com os políticos de ocasião instados no poder, têm responsabilidades sociais acrescidas, axiologicamente superiores e civilizacionalmente perenes que não se compaginam com politiqueiros  de ocasião e tiques de arruaça política ditatorial.

Num acto de boa fé, os sindicatos tentaram, hoje, dia 14 de Março, levar à mesa de negociações com o ME a indignação, sobejamente justificada e fundamentada, de (pelo menos) 100.000 docentes.

Num acto de má-fe, o ME entende que a indignação dos docentes é coisa desprezível. Num acto surdo, cego e mudo, o ME diz que a democracia, em Portugal, não pode funcionar com os cidadãos e com os professores que o País tem.

Das duas uma: ou os portugueses não servem a Portugal ou o Governo eleito não serve os interesses nem de Portugal nem dos portugueses(!)

Num acto de elevada maturidade cívica, talvez os professores e todos os cidadãos responsáveis e preocupados tenham, a curto prazo, de activa e concertadamente contribuir para recuperar o tempo perdido e a democracia política abandonada.

Resta, para o efeito, uma única e derradeira alternativa: ou Sócrates, como primeiro-ministro, corrige a política educativa e social do seu governo e demite a equipa do ME, ou…

… Ou os professores passarão a ser, na vida social e comunitária, estrategas políticos. É fácil aos professores, se a maioria deles assim  o quiser, derrotar o desvario político de Sócrates. Para tanto, basta congregar esforços e fazer aplicar, a partir de agora e até às próximas legislativas, a teoria radical do «EFEITO BORBOLETA».

Acreditem, em nome dos nossos alunos, da geração do séc. XXI que cada vez mais necessita de uma escola pública de qualidade, humana e democrática, é-nos possível desmascarar o óbvio e salvaguardar o fundamental: Os Professores, como agentes de reprodução dos valores humanistas e democráticos das sociedades contemporâneas e como promotores da cidadania activa e responsável junto das novas gerações (a Constituição da República Portuguesa exige-lhes essa sublime tarefa), denunciarão e combaterão, até à exaustão, a autocracia, a cultura bolorenta do medo, a política sonegadora da polis, a educação como cartilha de «resignação ética e moral dos cidadãos» às políticas balofas e aos politiqueiros de ocasião…

Saberá Sócrates (ou qualquer outro dirigente oriundo seja que de quadrante político for) que, em nome dos valores democráticos, se os prfessores quiserem, ele (ou qualquer outro ‘ourelhas moucas&rsquo ;) perderão vexadamente eleições?… Nos dias que correm, a tarefa até nem é complicada.

Para que a teoria passe à prática, basta um de nós fazê-lo criteriosa e adequadamente. A partir daí e  até à data das próximas legislativas, comprovar-se-á a eficácia do dito ‘Efeito Borboleta’. Quer ‘meças’, sr. Primeiro-Ministro?

É, se quiser, o «choque tecnológico» a funcionar conjugadamente com o profundo «choque de indignação» que invade a educação e os seus profissionais.

Quer arriscar, sr. Primeiro-Ministro? Por mim, sei que a democracia e as novas gerações agradeceriam aos professores e aos portugueses que V. Exª abomina.

Nota de rodapé. Já agora, Engº Sócrates, leia (de preferência em voz alta para que todos os portugueses desta vez o oiçam):

Entre as conclusões do congresso da ATL (Association of Teachers and Lecturers) fala-se do crescente número de alunos que se suicidam devido a “pressões académicas, e sociais” designadamente as que são exercidas pelos pares.” (&hellip ;) “Outros relatórios apontam as políticas educativas como as responsáveis por este estado de coisas.” (&hellip ;) “Num momento em que se proclamam as virtudes da “escola a tempo inteiro”, que obriga à permanência das crianças em full-time dentro do espaço-escola, deveríamos reflectir sobre as consequências desta decisão para a qualidade de vida dos mais jovens e se esta conversão das escolas em “armazéns de crianças” onde o “conhecimento” é o pretexto para as manter fechadas cinco dias por semana, se traduzirá numa mais-valia para o seu futuro enquanto cidadãos e enquanto pessoas.” (In “The Independent – Março 2007)